quinta-feira, 10 de setembro de 2009

"Os três porquinhos"

Como antecipámos ontem, voltaremos à companhia dos mundialmente famosos
Três Porquinhos, cuja história todos bem conhecem.
Mas tínhamos avisado que a história era bem diferente, como poderão verificar.
Esta versão foi escrita por Roald Dahl, um escritor que é de origem norueguesa
(pais noruegueses), mas nasceu no País de Gales (Reino Unido), em 1916.
Começou a escrever por volta do ano de 1942 e ficou conhecido pelo seu habitual humor negro.
Um dos seus livros foi recentemente adaptado ao cinema com o título
"Charlie e a fábrica de chocolate."
Roald Dahl morreu em 1990.

A história que vão conhecer faz parte do volume "Histórias em verso para meninos perversos", que foi traduzido para língua portuguesa pela vossa bem conhecida Luisa Ducla Soares.


OS TRÊS PORQUINHOS
Dos bichos todos o que eu mais estimo
É o porquinho e não é meu primo.
São nobres os porcos, inteligentes,
Bem educados e muito valentes.
Mas como não há regra sem excepção,
De vez em quando surge um parvalhão.
Diga-me você o que pensará
Se, passeando pelo bosque, lá
For encontrar um porco que trabalha
A construir uma casa de PALHA?
O lobo, que tal viu, pôs-se a pensar:
"Este tonto vai ser o meu jantar."
"Porquinho, porquinho, deixa-me entrar!"
"Não, que és lobo e me queres apanhar!"
"Então vou soprar mais forte que o vento,
A tua casinha não dura um momento!"
Por mais que rezasse a criatura
O lobo destruiu-lhe a arquitectura.
"Fiambre e presunto já eu provei.
De todos os lobos eu sou o rei."
Do pobre porquinho, ao fim e ao cabo,
Não se salvou nem a ponta do rabo.
Seguiu o seu passeio o lobo, inchado,
Mas o que viu logo o deixou pasmado:
Outra casa de porcos entre a folhagem
Toda feita de TRONCOS e RAMAGEM.
"Porquinho, porquinho, deixa-me entrar!"
"Não, que és lobo e me queres apanhar!"
"Então vou soprar mais forte que o vento,
A tua casa não dura um momento."
Gabou-se o lobo:"Vais ver, leitão!"
E pôs-se a soprar que nem um tufão.
Grunhiu o porquinho, num alvoroço:
"Já comeste, ó lobo, um bom almoço.
Não queres comigo fazer um contrato?"
"Para eu te comer antes num prato?"
Agarrou-o sem lutas nem fadiga,
Num instante lhe estava na barriga.
"Dois gordos porquinhos comi a eito
Mas ainda não estou satisfeito",
Disse o lobo:"Não me importaria
De comer outro lá para o meio dia." De modo que, com passo subreptício
O lobo se abeirou de outro edifício,
Onde outro porquinho estava abrigado
Com medo de ser também devorado.
Mas este porquinho, que era o terceiro,
Foi mais esperto e muito matreiro.
Com palhas e ramos trabalha um tolo,
Ele fez a casa só de TIJOLO.
"Aqui não me apanhas", o porco disse.
"Apanho-te já, tens muita tolice."
"Para isso precisas de muito soprar
E a minha casa não vai abanar.
O lobo soprou que nem um furacão,
A casa era forte, soprava em vão.
"Não a deito ao chão, por mais que me irrite.
Vou deitá-la ao ar com dinamite."
"Grande malvado!", gritou o porquinho
"Hei-de salvar-me. Espera um bocadinho."
No telefone pegou apressado,
O nosso porco tão ajuizado.
À espera de ouvir algum bom conselho
Ligou para o Capuchinho Vermelho.
"Alô", disse ela, "Quem está a falar?
És tu, porquinho, que me vens contar?"
"Precise que me ajude, Capuchinho,
Tenho problemas com um mau vizinho."
"Vamos a ver o que posso fazer...
Ah, é um lobo que te quer comer."
Disse a menina, nada amedrontada,
Pois, com lobos estava habituada.
"Ai a minha vida corre muito torta",
O porco disse. "Tenho um lobo à porta."
"Os meus cabelos estava a lavar,
Espera aí, que já os vou secar."
Pouco depois, através da floresta,
Chegou a menina, brava e lesta.
Lá estava o lobo, de olhos a brilhar
Como dois punhais prontos a cortar,
Abrindo a bocarra, afiando os dentes,
Rasgando a terra com garras valentes.
A menina puxou da camisola
Com rapidez, a sua pistola.
Mais uma vez no lobo acertou,
Só com um tiro o bicho matou.
O porquinho, olhando pela janela,
Aplaudia aquela bela donzela.
Porquinho, nunca deves confiar
Que moça fina te queira ajudar.
Capuchinho Vermelho tem, meu bobo,
Dois belos casacões de pele de lobo.
E viaja com MALINHA de MÃO
FEITA DE PELE DE PORCO, pois então!
Roald Dahl, in Histórias em verso para meninos perversos

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